26.9.05

AINDA ESTAMOS A TEMPO...



Quase todos os dias me acontece ter um motivo para acrescentar mais alguma pequena história ao meu Fadiário. E também, quase todos os dias, me confronto com a esmagadora realidade: apesar da minha energia e vitalidade constantes, o meu dia-a-dia tende a “gerir-se a si próprio”, numa sucessão de acontecimentos que lá vão adiando aquele telefonema tão importante que devíamos fazer, aqueles segundos de respiração menos acelerada, sem stress, o desfrutar dos raios de sol que nos vão avisando que o Outono já chegou, o escrever qualquer coisa - por simples que seja - que leve quem me rodeia a saber que estou lá.
É, sem dúvida, uma contradição, que seja exactamente a preparação de algo que quero partilhar com os outros (e que em grande parte faço também para outros) a “roubar-me” a disponibilidade para dar-lhes a atenção que gostaria...
Sabem, quanto maior a fé no que faço, e a ambição (descoberta recente na minha vida) de fazer mais e melhor ou de fazer tudo aquilo que sinto ser capaz, maior é a minha vontade de aproveitar todo esse poder criativo que me inunda, que me impele a estar tão activa neste momento. Como se o fruto dessa hiperactividade vos pudesse também contagiar, de alguma forma.
Por vários motivos, tenho cada vez menos afinidades com questões que dizem irremediável e definitivamente respeito ao nosso futuro e dos nossos filhos, tais como a politica, as religiões, as filosofias, as audiências e as guerras de interesses. E este é talvez um dos grandes motivos que me leva a não poder, nem querer, parar.
Custa-me não ter identidade, custa-me não ter definições, nem opiniões concretas e práticas de como fazer parte da vida, do meu país, do curso das coisas. E percebi que se não me dedicar a ser alguma coisa, a ser muito mais, não vai ser só com os conceitos que não vou ter afinidades... Vai ser comigo própria, pois vou apenas alimentar a fila do desencantados, dos descrentes, dos alienados, dos desistentes...
Posso não ter todo o tempo do mundo para as pequenas coisas da vida; mas, por agora, sinto que se não der o máximo - criando, partilhando, construindo, participando, intervindo – posso, um dia, vir a ter tempo de sobra para coisas ( ou uma vida )... pequenas demais.

Não sei se foi essa a fonte de inspiração para este desabafo mas, já agora, recomendo vivamente que vão apreciar a peça “COÇAR ONDE É PRECISO”, do José Pedro Gomes. Deu-me tanto que pensar quanto dores de barriga, provocadas por gargalhadas que só um humor de génio nos faz soltar... não percam!

4 Comments:

At 1:25 da manhã, Anonymous Anónimo said...

O problema é que de facto, quanto maior a ambição, quanto maior a fé que depositamos na vida e nos projectos que a constituem, maior é também a sensação de que não é suficiente o ponto onde chegamos.
A ignorância é ainda e cada vez mais uma virtude, uma sorte a que apenas os distraídos têm direito. E sendo cada vez mais os distraídos, são cada vez menos os que se preocupam com os outros, com o mundo, com o país. É por isso que nós, os desafortunados curiosos temos o dever de "fazer qualquer coisa". Longe de ideias presas em embalagens apetecíveis, é muito mais difícil opinar.
Escrevo nos Açores, onde o ver o sol a nascer na Ponta da Madrugada será uma nova sensação que experimentarei no sábado. E se é apenas na milésima visita à ilha que o verei nascer, sei à partida que mesmo com nuvens cerradas e chuva fria vai ser a noite mais perfeita dos últimos anos. É simples, é de borla, é de todos, é do mundo. E não vem embalado.

 
At 5:06 da tarde, Anonymous Anónimo said...

quem foi a fadista portuguesa convidada para actuar no Live8? ahhh já me lembro!!

 
At 8:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Todos nos lembramos quem foi. E lembramos-nos também de Amália, Lucília do Carmo, Argentina Santos, Ercília Costa, Maria Teresa de Noronha e tantas, tantas outras que teriam certamente sido convidadas, se hoje fossem jovens e dominassem as apetências do marketing, para o Live8, o 9 e o 10. Certo é que o Fado, mesmo o moderno, não larga os bairrismos. E há gente que fica tão cega pelo amor às suas "estrelas" que não aguenta sequer que outros valores existam. Só gente louca de inveja e cega de prepotência é que pode escrever comentários ressabiados e desnecessariamente provocatórios como o anterior, limpando de má-fé as patas sujas à carpete da casa que visita e lhe abre as portas. Nos corações de quem REALMENTE gosta de Fado (e não apenas daquilo que está na moda), há espaço para as glórias desaparecidas, os nomes de referência ainda vivos e as "mais novas" Aldina Duarte, Mísia, Kátia Guerreiro, Joana Amendoeira, Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Mariza, Ana Moura e todas as vindouras. Tudo isto é Fado. E quem cola o Fado a uma voz apenas, não o percebe. Tem apenas uma obsessão por alguém que o canta.

 
At 1:05 da manhã, Blogger Ricardo Belo de Morais said...

A propósito do tom e da oportunidade da referência anónima supra à presença de Mariza no Live 8, parece-me oportuno referir apenas que nem ela nem Mafalda Arnauth precisam de ter fãs de tão baixa formação cívica. Parece-me também que o comentário anónimo seguinte não deixou de exceder-se. Ambas as fadistas têm origens, estilos, vozes, personalidades, percursos e opções muito diversos. Comparar uma à outra (ou qualquer uma delas com qualquer outra fadista) é, por isso, um exercício estéril.

 

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